• Pesquisar:

Menu superior



Vias Seguras / Os acidentes / Acidentes com motos / Seminário DENATRAN de Educação e Segurança no Trânsito. / Riscos dos motociclistas profissionais e estratégias de prevenção (Parte 3)





Riscos de acidentes dos motociclistas profissionais e estratégias de prevenção (Parte 3)

Apresentação por Fundacentro (BH) no Seminário DENATRAN de Setembro 2006

Discussão, Conclusão, Bibliografia, Autores

4. Discussão

Viu-se a prática comum de horas extras com o objetivo de compensar a insuficiente remuneração. O estatuto precário leva à utilização da mão-de-obra pela empresa segundo os interesses dos clientes, contando com a flexibilização dos direitos trabalhistas que permite relações de trabalho frágeis (Antunes,1999 e 2000; Pochmann, 1999; Weller, 1998)., contribuindo para que motociclista intensifique seu trabalho de modo a compensar a baixa remuneração.

A pesquisa realizada evidenciou que o "modo de andar a vida", nos termos de Tambellini (1978), dos motociclistas constitui uma reação construída e moldada em função das peculiaridades e dos estímulos sobre os quais a atividade se estruturou: a pressão dos clientes por serviços rápidos, pontuais e de confiabilidade, a elevada demanda de serviços, as precárias relações de trabalho, a ocorrência de grande número de determinantes não controláveis que se contrapõem aos objetivos do setor, o uso da motocicleta como meio de deslocamento rápido no trânsito e num espaço urbano rígido.

Os meios pelos quais as empresas controlam a atividade e, por conseguinte, o motociclista, agravam a pressão temporal. Os determinantes não controláveis colocam em relevo o paradoxo da organização do trabalho dos motociclistas profissionais. De um lado, os objetivos da produção exigem pontualidade, presteza e confiabilidade. De outro, há as precárias relações de trabalho, a elevada densidade de trabalho, o tempo real menor que o prescrito, a pressão das chefias e a estreita margem de liberdade para mobilizar as competências desenvolvidas e implementar modos operatórios que preservem a saúde e evitem a nocividade das situações de risco (Assunção & Lima, 2003).

A impaciência manifestada pelos clientes comprova uma tolerância social exacerbada face aos riscos a que a própria sociedade, no seu conjunto, se submete. A atividade imaterial não exclui, embora desejasse, a produção realizada pelos corpos e mentes humanas. De certa forma, somos todos nós, quando pedimos uma pizza, um remédio ou a entrega urgente de um documento, que contribuímos para gerar condições adversas para os motociclistas profissionais.

A exigência de um atendimento com pontualidade, presteza e confiabilidade, no interior de um espaço urbano moldado pelo modelo de produção em grande escala, leva o motociclista a adotar procedimentos de risco no trânsito. A pressão das empresas e dos clientes para que os motociclistas cumpram as tarefas de acordo com os objetivos do setor parece explicar os modos operatórios evidenciados. Nesse caso, a remuneração por deslocamento seria um determinante menor da atividade.

Os resultados descritos permitem afirmar que o modo operatório de risco implementado no trânsito pelos motociclistas profissionais constitui o último recurso da categoria, caracterizando não um procedimento de rotina, mas uma forma de ação diante de circunstâncias especiais relacionadas à organização do trabalho.

Quando a margem de liberdade deixada pela organização do trabalho é estreita, não levando em consideração as exigências de tempo e os constrangimentos do espaço, os motociclistas profissionais alteram o modo operatório de pilotar com vistas a aumentar a agilidade e ganhar tempo.

A adoção de procedimentos que potencializam os riscos de acidentes é reconhecida pela categoria como efeito da organização do trabalho, e não como necessidade particular na busca de fortes emoções, como imagina o senso comum. Em recente reportagem na Folha de São Paulo (2003) o assessor técnico da presidência da Companhia de Engenharia de Tráfego paulistana afirmou: “os motoqueiros se sentem donos desse espaço”. Na mesma reportagem, segundo o depoimento de uma médica que participou da pesquisa do IPEA sobre custos de acidentes de trânsito o gosto dos motoboys pelo risco decorrente da alta velocidade se compara à prática do rapel pela classe média.

Ora, as abordagens centradas na mudança de comportamento dos trabalhadores prejudicam o desenvolvimento de políticas preventivas e a melhoria das condições de trabalho. Vilela et al. (2004) analisaram as conclusões de 71 laudos de acidentes ocorridos em 1998, 1999 e 2000, que foram realizados pelo Instituto de Criminalística da Regional de Piracicaba. Os referidos laudos concluem que 80 % dos acidentes são causados por atos inseguros cometidos pelos trabalhadores. Utilizando-se de outro modelo de análise, contrariamente ao disposto nos laudos, viu-se que 52,0 % dos acidentes ocorreram em situações de risco evidente, facilmente identificados por meio de simples inspeção, e que 25,5% estariam relacionados a um conjunto de fatores que não ocorrem de modo habitual. Por falta de dados disponíveis, 22,5 % da amostra não puderam ser analisados pela classificação proposta. Torna-se evidente, como no caso dos motociclistas, a atribuição de culpa ao acidentado por decisões e comportamentos que não estariam na sua esfera de controle.

Quando a margem de organização do trabalho permite, os motociclistas profissionais tentam cumprir os objetivos estabelecidos pelo setor, sustentando-se nas redes sociais solidárias, no planejamento das rotas, no controle temporal das tarefas, nas negociações das demandas de serviço com chefias e clientes.

A realidade vivida pela categoria constitui uma exigência social passível de transformação, não determinada pela característica intrínseca da profissão ou do perfil do trabalhador. Tal fato contradiz a percepção negativa da sociedade e dos experts em segurança a respeito dos motociclistas profissionais.

5. Conclusão

A rede de prestação de serviços que conecta as unidades fabris, as instituições públicas e de serviços e o cliente, que traduz em seu comportamento apressado a lógica de produzir mais em menor tempo em um mercado competitivo, são fatores explicativos das condições geradoras de acidentes que envolvem motociclistas profissionais.

A existência de bolsões de desempregados facilita a implementação da lógica de reduzir tempo e encurtar espaços, pois uma vez fragilizados pela política desfavorável de emprego, submetem-se a margens estreitas para cumprir as metas almejadas, restando como um dos domínios possíveis a capacidade de driblar sobre duas rodas as intempéries meteorológicas e organizacionais da vida nas cidades.

O número crescente de motociclistas profissionais, os riscos de acidentes que eles vivenciam rotineiramente e os dados aqui apresentados colocam em xeque as tradicionais políticas públicas praticadas e as propostas de intervenção formuladas pelos atores sociais envolvidos com a questão.

6. Referências bibliográficas

ASSUNÇÃO, A,A; LIMA F.P.A A contribuição da ergonomia para a identificação, redução e eliminação da nocividade do trabalho.In: MENDES, R.Patologia do trabalho. 2.ed atualizada e ampliada. São Paulo: Atheneu, 2003.Vol. 2, parte III, Cap.45.

ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Cortez Editora. São Paulo. 1999, 155 p.

ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000. 258 p.

DINIZ. E.P.H. As condições acidentogênicas e as estratégias de regulação dos motociclistas profissionais: entre as exigências de tempo e os constrangimentos do espaço. 2003. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção).Escola de Engenharia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

DINIZ, E.P.H. ASSUNÇÃO A.A; LIMA, F.P.A. Prevenção de acidentes: o (re)conhecimento das estratégias operatórias dos motociclistas profissionais como base para a negociação de acordo coletivo. Ciência e Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, 10(4):1-11, 2005

FOLHA DE SÃO PAULO. Moto representa 19% do gasto com acidentes. Folha de São Paulo, caderno 3, 1°jun. 2003.

GUÉRIN, F; LAVILLE, A; DANIELLOU, F; DURAFFOURG, J; KERGUELEN, A. Compreender o trabalho para transformá-lo: a prática da ergonomia. São Paulo: Editora Edgard Blucher Ltda, 2001. 200 p. Título original: Comprendre le travail pour le transformer-La pratique de L`Ergonomie.

HARVEY, D.. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola. 349 p. 1989.

LOJKINE, J. A revolução informacional. São Paulo: Cortez Editora. 1995. 316 p.

TAMBELLINI, A.M. O Trabalho e a doença. In: GUIMARÃES, R.(Org.). Saúde e medicina no Brasil: contribuição para um debate. Rio de Janeiro: Edições Graal. 1978.

VILELA, R.A.G; IGUTI, A. M; ALMEIDA, I.M. Culpa da vítima: um modelo para perpetuar a impunidade nos acidentes do trabalho. Cadernos de Saúde Pública. Rio de Janeiro, vol.20, n.2. p.570-579. 2004.

POCHMANN, M. O trabalho sob fogo cruzado: exclusão, desemprego e precarização no final do século. São Paulo: Editora Contexto. 205 p. 1999.

RODRIGUES, C de S. LADEIRA, R.M.; PEREIRA, J.C; I.M de. (Org.) Saúde em trânsito: pesquisa de acompanhamento de vítimas de acidentes de trânsito em Belo Horizonte. Belo Horizonte. Secretaria de Saúde de Belo Horizonte/ BHTRANS, 2005. 30p.

WALDVOGEL, B.C. Acidentes do trabalho: os casos fatais a questão da identificação e da mensuração. Belo Horizonte: Segrac. 2002. 192p., 24cm (Coleção PRODAT Estudos e Analises, v.1, n.1, março 2002) ISBN 85-88669-02-01.

WELLER, A.. Supressão e geração de empregos em uma época de mudanças estruturais. In: DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICAS E ESTUDOS SÓCIO-ECONÔMICOS. Emprego e desenvolvimento tecnológico, 1998.

Os autores

Eugênio Paceli Hatem Diniz, pesquisador da Fundacentro – Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho. Rua dos Guajajaras nº 40, 14º andar. 30180-100. Belo Horizonte, MG, Brasil. eugenio.diniz@fundacentro.gov.br

Ada Ávila Assunção e Francisco de Paula Antunes Lima, professores da Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Alfredo Balena nº 190, Sala 8009. 30130-100. Belo Horizonte, MG, Brasil.

adavila@medicina.ufmg.br

fpalima@dep.ufmg.br