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Trauma, doença negligenciada

 (Julho 2011) Para o cirurgião Gustavo Pereira Fraga, a sociedade precisa passar a encarar o trauma como doença e o governo deve investir na estruturação da rede de hospitais, centros de trauma e de reabilitação e na integração do sistema de atendimento ao traumatizado.

Marina Lemle

Encarar o trauma como uma doença negligenciada é o primeiro passo para se avançar na prevenção e no atendimento às vítimas. Essa é a bandeira do cirurgião Gustavo Pereira Fraga e de uma série de sociedades médicas preocupadas em reduzir a doença que vitima centenas de milhares de brasileiros a cada ano, entre mortos e feridos.

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Nesta entrevista a Por Vias Seguras, Fraga, que é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado (Sbait) e professor de Cirurgia do Trauma da Unicamp, dimensiona o problema e sugere caminhos.

 Qual a maior causa de trauma no Brasil?

Morrem por ano 130 mil pessoas vítimas de “causas externas”, a maioria por homicídios – cerca de 60 mil - e em seguida por eventos fatais no trânsito – quase 50 mil. O restante são outras causas, como quedas e suicídios. No mundo, a maior causa é o trânsito.

O trauma é uma doença?

Na visão dos cirurgiões, sim, porque tem diagnóstico, prevenção e tratamento. O trauma é uma doença negligenciada pela sociedade. É a principal causa de óbitos em jovens. Todo mundo conhece alguém que morreu ou ficou gravemente ferido e mesmo assim não se considera uma doença. É preciso mudar a maneira de se encarar o problema. Há muito o que se avançar em prevenção. Os países desenvolvidos investem muito mais nisso. O Brasil gasta milhões de reais por ano no Brasil para tratar essa doença, e a prevenção é o ponto mais vulnerável da cadeia.

É possível se estimar os custos em atendimentos?

Os traumas oneram muito o sistema público de saúde – de 30% a 40% do orçamento do SUS, segundo dados do Ipea e do Ministério da Saúde. Em média, para cada acidentado que morre, há três que ficarão com sequelas importantes. Cerca de 400 mil pessoas por ano ficam com sequelas crônicas, o que as torna dependentes do sistema de saúde e também do sistema de previdência, já que não podem mais trabalhar. São lesões neurológicas, traumatismos que deixam a pessoa paraplégica e traumatismos de extremidades, que dificultam o uso das mãos e das pernas para locomoção.

Que tipo de trauma é mais comum em acidentes de trânsito?

O trauma vai depender do acidente que o causou, mas os mais frequentes são os traumas de crânio, hemorragias de tórax e abdomem. Os acidentes mais frequentes são os de automóvel, atropelamentos e com motociclistas, que hoje podem ser considerados uma epidemia. Acidentes de moto causam muito traumatismo de membros.

 O que fazer para reduzir a incidência e as consequências do trauma no Brasil?

São quatro elos fundamentais: prevenção, atendimento pré-hospitalar, tratamento hospitalar e de reabilitação, que devem funcionar articulados. No Brasil, já existem algumas medidas interessantes, como o Código Nacional de Trânsito, de 1997, a Lei Seca, de 2008, e a lei da obrigatoriedade do uso da cadeirinha para crianças, de 2010, mas a legislação ainda é frágil por causa da falta de fiscalização. Onde não há controle, a lei não é efetiva. Também há muito a avançar na estruturação da rede de hospitais de atendimento, centros de trauma e reabilitação e na integração do sistema. São necessários mais investimentos hospitalares para traumatizados.

O que é e o que propõe o Projeto Trauma?

A Sbait começou o Projeto Trauma junto com diversas sociedades médicas em 1999 visando a estruturação do sistema de trauma. Desde então, o governo criou políticas e portarias relacionadas à rede de urgência e emergência, como o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que passou a proliferar após 2002, as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e agora, em julho de 2011, a Portaria 1600 (que reformula a Política Nacional de Atenção às Urgências e institui a Rede de Atenção às Urgências no Sistema Único de Saúde). A Sbait está verificando como desenvolver ações junto ao governo para alocar recursos para melhorar as condições de trabalho dos profissionais. As sociedades médicas estão cobrando muito para que as portarias sejam cumpridas.

Como as sociedades se mobilizam?

Realizamos congressos anuais e, em 2012, de 22 a 25 agosto, a Sbait realizará seu 10o Congresso junto com o 14o Congresso Brasileiro das Ligas de Traumas e do 1o Congresso Mundial de Trauma. O Congresso representa uma aliança global para difundir o trauma como doença e vai mostrar as diferenças no atendimento aos traumatizados nos vários países.

Qual a importância desse evento para o Brasil?

O país vai sediar os Jogos Olímpicos e tem que estar preparado e organizar seu sistema. Outra discussão importante é a capacitação de médicos para atender as vítimas de traumatismo. Hoje não existe o reconhecimento da cirurgia do trauma como especialidade médica. A Sbait está construindo junto com o Colégio Brasileiro de Cirurgiões uma proposta para que ela seja de imediato reconhecida como uma área da cirurgia geral, com treinamento de dois anos, para que em curto espaço de tempo o profissional possa estar habilitado e certificado, e que isso possa levar ao estabelecimento de uma especialidade médica. A ideia é que em alguns anos tenhamos esse especialista – o cirurgião de trauma – para atender a pacientes baleados e acidentados.

Mais informações:

Projeto Trauma

Congresso Mundial de Trauma

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